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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

A herança portuguesa em Omã V (ou talvez não)

Uma das fortificações à entrada da velha Mascate
Um colega Português tinha-me falado de rumores ou melhor, de comentários de locais, que havia um cemitério dos Portugueses numa enseada algures na zona de Mascate onde só se chegava por mar. De Portugueses só poderia ser do tempo em que cá estivemos, vai para 500 anos quando toda a costa do Iémen, Omã e golfo adentro era controlada pela Coroa. Hoje em dia somos nem duas centenas e se algo corre mal voltamos para Portugal.
Esperámos pelo tempo mais fresco e resolvemos alugar um barco de recreio durante umas horas e ir à descoberta num passeio cultural e de veraneio.
Depois de irmos até à entrada de Matara (Mutrah na transliteração actual, mas pronunciado pelos locais soa mais parecido com a versão portuguesa) onde tivemos um encontro de terceiro grau com a polícia marítima. Pelos vistos não podemos entrar para a zona do porto actual de Mascate à vontade, se bem que o palácio do Sultão se pode chegar bem perto. Aí deve ser sem aviso, as metralhadoras pesadas são ameaçadoras o suficiente. Voltámos para trás e fomos explorando as enseadas, uma a uma até encontrar algo semelhante a um cemitério. No dia anterior tínhamos visto no Google Earth algo semelhante a campas, mas muito branquinhas, o que, para 500 anos seria obra (divina provavelmente).
As ditas, vistas de mar.
Numa delas encontrámos as tais campas. De facto, só mesmo por mar ou escalando do outro lado do rochedo. Num terreiro elevado e plano, a sobressair da praia de calhau lá estavam, bem cuidadas e recentemente pintadas, as campas. Ou divino ou não tinham 500 anos. Era um cemitério, mas de ingleses, marinheiros naufragados na costa de Omã nos últimos 200 anos. Muitos sem nome "known to God" na lápide. Outros ilustres desconhecidos e ainda para os VIPs o seu título: clérigos, administradores, etc. Pelo que deu a perceber a maioria seriam pessoas em transito entre a Índia ou mais além e a metrópole. O mais português que vimos foi um nome que imagino seja de Goa, mas com uma data muito recente. De resto os habituais torreões em todos os promontórios. Estando visto o cemitério dos portugueses (not) dedicámos o resto do tempo à parte do veraneio com boa companhia de portugueses, estes vivos da Silva!
Matara vista de mar. Aquele barquinho ao lado do iate do Sultão foi-nos dizer bom dia e desandem daqui.
 

sábado, 4 de janeiro de 2014

A herança portuguesa em Omã IV

Já tinha indagado sobre vocábulos de origem portuguesa que tivessem ficado no árabe que se fala em Omã ou pelo menos em Mascate. Procura infrutífera até agora. Sempre que encontrava uma palavra em comum era influência árabe no português e certamente via Magrebe. Apenas o edifício Graiza em Mascate antiga que se refere à antiga igreja e convento portugueses que existiam no local. Além disso apenas o Ryal, a moeda do Sultanado, originalmente o Real português, em tempos moeda de troca por esse Índico fora.
Uma vista das varandas do bait al baranda
Em Mutrah, antiga Matara para os portugueses, tinha reparado num museu chamado bait al baranda. Veio logo a piada fácil que devia ser por ter varandas. Depois de o visitar e googlar a palavra descobri que não é piada. Parece que varanda ou a variante veranda existe no português e no espanhol desde pelo menos o século XV e não existe similar em árabe. Só em persa existe baramada e não se refere ao mesmo conceito. O edifício não é português, foi construído mais de um século depois da expulsão dos portugueses destas paragens. Originalmente não o tinha, mas ficou, depois de ficar na alçada do ministério do turismo, com o nome usado popularmente em Matara devido às suas varandas. Fica a sugestão de que Omã foi colonizado por pessoal do Norte carago! Sobre o museu tem uma exposição sobre a história de Omã, desde os dinossauros até aos dias de hoje, com muitos saltos. Há uma sala com dois esqueletos de dinossauro muito apertados, outra com a colisão dos continentes (e a formação do ofiólito de Omã) passando depois para a pré história e história mais recente. Um pouco de espaço ainda para os trajes e instrumentos musicais tradicionais do país. Apesar da exposição desgarrada vale a pena a visita.
Sobre a palavra, um site interessante aqui

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

As Sawadi

O "concheiro" de As Sawadi
Aproveitando o fim do Ramadão e as férias a que, obviamente, se tem direito porque é o fim do Ramadão seguimos para um local perto de Mascate mas longe o suficiente para saborear o tempo livre. A costa de Batina que se estende desde Mascate até à fronteira com os Emirados é uma zona aplanada entre as montanhas Hajar no interior e o Oceano Índico. É e foi historicamente uma zona densamente povoada (para padrões de países desérticos como este) visto que as chuvas, mais abundantes nas montanhas, alimentam durante todo o ano os aquíferos de toda esta planície. Foi também uma zona controlada pelos Portugueses durante o período de ocupação. Na verdade só as praças fortes como a de Barka (Borka nos mapas Portugueses da época). Ainda hoje há um forte, atualmente reconstruído mas ocupado pelos portugueses durante o tempo que cá estiveram.
Outra fortificação, mas que suponho bem mais recente, está na ilha de Sawadi. A linha de costa de Batina é incrivelmente reta, mas tem um pequeno cabo formado pela influência de uma ilha - suponho que por erosão diferencial que deixa umas ilhas ao largo da costa - a apenas umas centenas de metros do continente. 
Vista da praia para Este, com a ilha Sawadi ao fundo
Os ventos predominantes de Este e respetiva ondulação fazem com que a praia a Este do cabo fique protegida e com um extenso areal. A essa areia juntam-se as incontáveis conchas e corais que proveem dos recifes que circundam as tais ilhas da zona. Há zonas da praia em que a praia são conchas e corais. 
Esta é a explicação geológica da beleza da zona. Uma praia infindável cheia de conchas que a nós nos parecem exóticas, ilhas ao largo, águas calmas e quentes e vida marinha por todo o lado. Para um geólogo, mesmo a vida marinha morta na praia - leia-se as conchas - é interessante. Não tivemos oportunidade de explorar mas o hotel contiguo é também um centro de mergulho e snorkeling. Aparentemente um dos melhores de Omã. 
Vista semelhante na maré baixa com muita bicheza nas poças
Já era bom mas ficou melhor visto que a temperatura e humidade estiveram sempre baixas (i.e. ligeiramente abaixo dos 30ºC) devido a um "pedaço" da monção que nesta zona só deu vento mas nas montanhas deu chuva e inundações. Foi de curta dura, na semana seguinte voltámos aos 35ºC que com humidade se sente como mais de 40ºC...


segunda-feira, 15 de abril de 2013

Assentamento

O contentor que transportou os pertences de Portugal
Escrevo com um atraso de semanas. Os nossos pertences foram entregues na casa definitiva e já nos mudamos. Os primeiros tempos foram de pequenos arranjos, pequenas inundações e muita tralha por arrumar (que continua em caixotes)... Aos poucos arranjamos a mobília que falta, com opções limitadas visto que os locais e muitos dos estrangeiros gostam de mobiliário digno de palácios imperiais romanos ou jogador de futebol que foi para a Rússia. O tema vale um post separado ou mesmo uma tese de doutoramento sobre design de interiores.
Há a hipótese de ir ao ikea nos emirados mas há também os classificados dos estrangeiros que de repente são enviados para outro país e têm de vender a mobília toda que compraram há 6 meses. Os recém-chegados agradecem.

quinta-feira, 7 de março de 2013

A costa



O ponto de partida
Já tinha visto parte da costa a Sul de Mascate, na zona de Qantab, Yitti e Al Bustan. Mas de terra. Agora foi a vez da vista de mar. Evitando os preços dos barcos de recreio da marina, seguimos para Qantab, e um dos locais, ajudado por miúdos que pareciam estar a poucos anos de se tornarem lobos do mar, levou-nos para uma volta junto à costa a Sul e Sudeste de Qantab. Preço regateado claro! A costa, muitíssimo recortada, com muitas enseadas com praia, algumas delas só acessíveis por mar. As mais pequenas imaculadas, pequenos paraísos. As maiores, quase todas, com resorts de luxo, em funcionamento ou em construção. Com certeza levarão mais pessoas a estas zonas, mas infelizmente só as com dinheiro suficiente… O mar parecia calmo nas enseadas protegidas, mas fora delas ainda deu para uns belos banhos sempre que o barco dava chapadas na água. Para quem gosta de aves, é fantástico, águias pesqueiras, abutres, rabos-de-palha, garças e muito mais. Não deu para fazer snorkeling, mas certamente seria bom. 
Um dos resorts
Dá para perceber a dificuldade de manter o controlo de uma área tão extensa de costa, tão recortada, controlando apenas os portos. Devia ser impossível prever ataques vindos do interior e nalguns sítios devia ser possível esconder uma armada inteira de navios em algumas enseadas sem serem facilmente detectados. Talvez por isso tenhamos conseguido repelir os ataques dos turcos e persas mesmo quando surgiam com grandes armadas, mas não os dos omanitas que vinham do interior

Um dos vários ilhéus

Fica a nota mental para explorar esta costa, a 20 minutos de casa. Também para explorar, por indicação de um colega português, uma destas enseadas só acessível por mar, mais perto de Mascate, conhecida localmente como o cemitério dos Portugueses. Soa a uma boa saída.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Nome errado, comida na conta certa



Aproveitando o fim de semana e a companhia de amigos em visita voltei a explorar a costa a Sudeste de Mascate em Al Sidiya. Os barcos de pesca em Portugal normalmente são boa indicação de um ou mais restaurantes com peixe fresco e, espera-se, bem cozinhado.
Já tinha identificado um peixe da família da dourada (robalo, dourada, sardinha, sempre uma escolha certa, sustentável e saborosa) que abunda nestes mares, entre as várias dezenas que se podem encontrar nos mercados e restaurantes. Nesse aspecto parece ter mais variedade que em Portugal onde alguns peixes parecem estar restritos a cantinas (redfish, abrotea, maruca, etc), outros a restaurantes e depois alguns peixes que só parecem ser comprados e comidos em restaurantes especializados que ficam no vale de cu de Judas junto ao mar onde o pessoal vai em romaria só para comer esse prato. Os mais populares por aqui são o hamour (garoupa) e o kingfish (não sei o nome em Português, só em Árabe :) ). Talvez por isso mesmo estejam na lista de peixes cujo stock esteja sobre-explorado (ver mais aqui).
Felizmente, como em Portugal, a dourada, faskar por estes lados, tem os stocks em bons níveis e não há sobrepesca. Também como em Portugal é muito saboroso!
Vai lá com a mão!

A bela da tasca à beira da estrada, tinha como algumas em Portugal, erros ortográficos no inglês, a começar pelo nome do sítio. Será que também é uma indicação universal de boa comida? Comida omanita, clientes omanitas, cozinheiros paquistaneses. Comer com a mão claro. O peixe não vem grelhado, mas frito, bem condimentado e ligeiramente picante. A acompanhar arroz tipo byriani e salada não condimentada. Molho carilento e picante para quem quiser. Os amigos escolheram um shaari eshkeli (não faço ideia do nome em Português) e estava também muito bom. Sou esquesitinho na qualidade do peixe e na forma como é cozinhado, mas este sítio encheu-me as medidas. Com amigos então, é do melhor. Só falta conseguir comer o arroz sem ficar com metade na barba. É pena que esta boa comida não se veja mais. Os restaurantes que não são tasca têm indiano, libanês, iraniano, tailandês mas pouca coisa omanita. Talvez seja a falta de clientes, especialmente os expats que acho que não se aventuram muito por sítios que não tenham um ar moderno. Viva a tasca!
Nome errado, comida certa

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A feira



Este “velhote” esteve meia
hora a saltar numa luta de
espada encenada
Durante um mês por ano decorre o Muscat Festival. Este ano foi separado em duas zonas, ambas fora de Mascate, o que não dá muito jeito para ir ao fim da tarde, mas ainda assim esteve sempre cheio de gente. Foi interessante ver o conceito porque tem tudo o que se pode esperar encontrar num festival de artes (mais virado para as famílias) embora sem álcool nem drogas claro. Mas também tudo o que se pode esperar encontrar numa feira de produtos regionais, um pouco de feira popular e ainda uma pitada de stand de automóveis. Vou propor aos organizadores chamar-se FAECO - Feira das Actividades Económicas e Culturais de Omã. Ao estilo da quase homónima que se realiza em S. Teotónio para o concelho de Odemira. Nem faltavam os churros, ou algo similar. Havia também o mobiliário feito com palmas, desde a caixinha para o faqueiro até ao roupeiro, alguma bijutaria, as chibatas para os camelos, os kanjars, dishdashas e outra indumentaria.
Mini churros
Como ainda não me aventurei para muito longe de Mascate ainda não vi muito. No festival o que se podia ver do resto do país, para além de várias versões de crepes com ovo, natas azedas e mel – bem bom posso atestar – e outras iguarias culinárias era a diversidade genética deste povo. Em Mascate há alguma diversidade, mas uma pequena amostra pelos vistos. Pessoas com cara de etíopes puros, outros africanos que imagino tenham origem na zona de Zanzibar que foi omanita até à pouco tempo, para além do pessoal com caras árabes (embora já não tenha bem a certeza do que isso significa), paquistanesas (Omã também controlava parte desse território) e claro, toda a mescla destes povos. 
Não há homem da cerveja, há homem do chá
Até aos anos 50 havia escravos africanos, embora já integrados na sociedade e rapidamente absorvidos quando a escravatura foi abolida. Importa dizer que o conceito de escravidão não era o mesmo que temos da altura das nossas descobertas. Pelo que sei eram principalmente soldados. Também na absorção de outras culturas e etnias somos semelhantes aos Omanitas, embora o tenhamos feito ao longo de mais séculos e não tenhamos mantido a escravatura tanto tempo.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A herança Portuguesa em Omã III



Mais um passeio, desta feita a Norte de Mascate, ao longo da extensa planície costeira de Batinah. A zona extende-se de um pouco a Norte de Mascate até à fronteira com os EAU. As montanhas ficam a uns quantos kilometros da costa e toda a área entre estas e o mar é muitissímo plana, composta pelos depósitos aluviais das montanhas (são os clássicos debris flows, aqui com dezenas de metros de espessura). Quase toda a chuva que cai nas montanhas é escoada à superfície e principalmente subterrâneamente, em direção à costa, através destes depósitos, fazendo deles um excelente aquífero. Não estranhamente esta é das zonas da península arábica mais férteis e densamente povoadas – para padrões de península arábica – e de facto muitos dos produtos omanitas que se vêem nos supermercados são produzidos nesta zona.
A capital desta zona é Sohar, referida nos textos portugueses como Soar. Foi, pelo menos desde o tempo dos antigos gregos um importante interposto comercial para as rotas vindas do extremo oriente e o ponto de exportação do cobre que ainda hoje é produzido nas montanhas circundantes. E claro está, estratégica como era, foi conquistada pelos portugueses e há ainda um forte por nós construído ou reconstruído.
Encontrei uma referência a esta cidade num texto João de Barros na Primeira Década da Ásia, dos feitos que os portugueses fizeram no descobrimento dos mares e terras do Oriente, Livro IX, Cap. I de 1522 (vejam o interessante blog sobre as cidades Portuguesas referidas nos Lusíadas aqui):
(…) té o cabo Rofalgate, que está em vinte e dous graos e meio, e será de costa cento e vinte leguas, toda he terra esteril, e deserta. Neste cabo começa o Reyno de Ormuz, e delle té o outro cabo Monçadan haverá oitenta e sete leguas de costa, em que jazem estes lugares do mesmo Reyno, Calayate, Curiante, Mascate, Soar, Calaja, Orsaçam, Dobá, e Lima, que fica oito leguas antes de chegar ao cabo Monçadan, que Ptolomeu chama Asaboro, situado per elle em vinte e tres graos e meio, e per nós em em vinte e seis, no qual acaba a primeira nossa divisão. E a toda a terra que se comprehende entre estes dous termos, os Arabios lhe chamam Hyaman, e nós Arabia Feliz, a mais fértil, e povoada parte de toda Arabia.
Só reconheço alguns dos topónimos referidos e a Hyaman referida parece corresponder à costa de Batinah como é hoje chamada e a zona costeira montanhosa a SE de Mascate. Monçandan é a península que forma o estreito de Ormuz (nome que corresponde na verdade à ilha do lado Iraniano). O cabo de Rofalgate fica a SE de Mascate, sendo o ponto mais oriental da península.
Omã ou uma velha adega no Alentejo?
Ao contrário de Mascate, em Soar não há rochedo onde construir o forte de modo que este está sobre uma pequena elevação junto ao mar e tem pouco mais do que uma muralha e algumas construções no interior. Uma parte do terreiro tem a descoberto escavações arqueológicas que mostram construções referidas na pancarta como sendo anteriores aos portugueses e eventualmente até pré-islâmicas. No meio do terreiro um canhão muito degradado possivelmente português, mas não consegui ver. Claramente posterior é a torre quadrada no centro do forte que vai albergar um museu sobre a história do forte e desta zona. Deve valer a pena cá voltar quando abrir!
Mais uma vez gostava de conhecer mais sobre história da arte, em particular da arquitectura. Edifícios circulares com 1 ou 2 andares e uma entrada. Já os vi no Alentejo. Até com as ameias. Os arcos e a disposição das janelas e portas parece familiar, com cunho português, mas algumas dessas coisas associo à influência árabe em Portugal de modo que se torna difícil perceber qual a sua origem. West meets East na sua forma mais interinfluenciada.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

A solução para a evasão fiscal



Caros amigos, portugueses em geral, sr. Ministro das finanças. Tenho a apresentar uma solução inovadora e particularmente eficaz para acabar com o problema da evasão fiscal. Garantida. Vou dizer outra vez: G-A-R-A-N-T-I-D-A. Ainda para mais vai estimular a economia, fomentar a criação do próprio emprego e start-ups em todos os sectores de actividade. Irá também reduzir a burocracia a nível das empresas e do cidadão comum.
A solução para evitar a fuga aos impostos é… não haver impostos!! Isso mesmo, leram bem, se não houver impostos, acabou o problema dos recibos e faturas, ninguém passa por mau cidadão e todos terão a oportunidade de ter o seu próprio negócio sem sequer pensar na máquina fiscal. A única coisa que o país precisa para isto funcionar é encontrar uns bons biliões de barris de petróleo. Coisa pouca.
É assim que Omã consegue ter crescimento económico, construir desenfreadamente, garantir emprego para os cidadãos nacionais e mais um milhão de estrangeiros. Como não há impostos, com exceção das empresas de petróleos e alguns produtos importados, os pequenos negócios abundam. Assim, o técnico que trabalha na litoteca (o sítio onde se guardam os calhaus, para os não-geólogos) tem um taxi – aliás acho que é o seu carro normal – e quando alguém precisa é só combinar com ele. Eu já usei e dá muito jeito. E como não há taxímetro pode-se negociar o preço. O mesmo senhor tem um rebanho de cabras (esse já não leva para o trabalho) e também faz negócio com isso. Pode ser que dê jeito quando houver barbecue. O senhor da empresa que ajuda os recém-chegados a tratar da papelada da carta de condução tem uma escola de condução para os desgraçados que não têm a sua carta reconhecida cá. E para as mulheres dos estrangeiros também. O outro senhor que trata da atribuição das casas tem um negócio de pequenas construções no caso de ser preciso alguma coisa extra (e normalmente é). Como veem, é promovida a economia que deixa de ser paralela para ser convergente, toda a gente pode ser bom cidadão e não há papelada que só serve para encher gavetas e ser vista entre Fevereiro e Abril.
Solucionado. Podem falar com o Gaspar? O fuso horário aqui não dá muito jeito para ligar.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A herança portuguesa em Omã II



Forte de Al-Jalali, visto do de Al-Mirani
Vista sobre o forte de Al-Mirani com capela portuguesa
à esquerda (de Historical Muscat)



Já tinha visto no guia que a maioria dos fortes são militares e o acesso normalmente não é permitido. Ainda pensei que poderia lá chegar com ar de proto-colonialista (deve existir certo? Há neo, há proto. Ou será paleo?) e dizer “Assalam alaykum, sou Português, os meus antepassados construíram este maravilhoso forte no cimo deste rochedo, de modo que gostaria de o visitar e ver o que vocês fizeram com ele nos últimos séculos, ok?”. Não sei se teria tempo de fugir entre o armar da AK e o disparo portanto tive mesmo de os ver por fora. Toda a zona de Mascate é montanhosa, excepto nos vales amplos onde estão maior parte das construções. Alias Mascate velha é só uma parte da cidade, o porto (Mutrah – Matara em Português) está noutra zona, Ruwi está ao longo de um vale que se estende para o interior e ao longo de uns 40km paralelamente à costa, a cidade tem esta configuração. Entre os vários vales, há promontórios - alguns deles entrando pelo mar, formando baías - onde invariavelmente está um forte ou pelo menos um torreão. Alguns são reconhecidamente portugueses ou, mesmo se houvesse uma construção anterior, foram totalmente reconstruídos e portanto considerados como portugueses. Muitos deles foram recentemente revestidos a cimento e perderam um pouco do seu “ar rústico” e diria eu, do seu valor arquitetónico e patrimonial. O único que restava – Al Mirani, antigo forte do Capitão – está neste momento a ser rebocado. 
Pórticos no interior do forte Al-Jalali
(de Historical Muscat)
Não percebo suficiente de história da arte para perceber o que os distingue como portugueses. Noto que os arcos das janelas não são como os restantes que se vêem em edifícios desta zona. Sei que as ameias originalmente não existiam ou eram rectangulares, mais ao estilo que estamos habituados a ver nos castelos portugueses (embora algumas dessas também sejam recentes). Brasões ou outras marcas portuguesas mais evidentes só no interior. Os canhões foram transformados em pinos de passeio e não parecem ter nenhum cunho. Se tivesse conseguido entrar com o paleio proto-colonialista poderia ter perguntado se as latrinas são ao estilo turco ou se tinham mantido o estilo ocidental, mas se calhar nos secúlos XV e XVI não havia esse tipo de cuidados…
Vista aérea para Norte da antiga Mascate em 1905, ainda com muralha
portuguesa e a ruina da Gharayzah ao centro (de Historical Muscat).

Os fortes de Al-Mirani e de Al-Jalali (antigo forte de São João) em Mascate velha estão estrategicamente posicionados no antigo porto abrigado. O acesso só se consegue pelo lado do mar, por terra só para quem faça escalada profissionalmente. Entre os dois fica o complexo do Palácio do Sultão, também com acesso restrito. No forte de Al-Jalali parece que resta uma capela portuguesa e no de Al-Mirani algumas inscrições e pórticos claramente de origem portuguesa. Não os vi mas arranjei umas imagens (obrigado Pedro!). 
Forte de Matara visto de Mutrah
A muralha que envolvia toda a Mascate antiga foi destruída nos anos 80 para a modernização da cidade. É pena, mas se pensarmos também não resta muito da muralha fernandina em Lisboa. Também destruída, embora logo nos anos 20, foi a igreja portuguesa que provavelmente incluía um mosteiro, quando toda a zona de Mascate antiga começou a ser modernizada. Restou, no entanto, o topónimo local Bayt Gharayzah ou gareza ou greiza. Não é difícil perceber de onde vem o nome.

Porta de entrada
no forte de Matara
Vista interior do Forte de Matara
O forte de Matara, sobre a colina que limita a atual Mutrah ou Matrah é o único visitável. O acesso é difícil, no meio do bairro que o circunda e por umas escadas bem íngremes. Se por acaso a porta estiver aberta ótimo, se não, volte mais tarde. À segunda consegui. A vista é soberba. Infelizmente está muito mal conservado e os antigos canhões confundem-se com lixo bem recente. Parece que os arranjos foram só por fora. Pelo que li, originalmente eram apenas dois torreões que foram posteriormente ligados por uma muralha. Porventura o know-how português de recuperação de castelos aliado ao dinheiro omanita poderia ser uma boa solução. Certamente merecida.
Vista sobre a atual Mutrah, do forte de Matara
 Para saber mais, Wikipedia e um belo livro sobre Omã e Mascate: Historical Muscat de J.E. Peterson.

sábado, 26 de janeiro de 2013

A herança portuguesa em Omã



Desde que soube que vinha para Mascate comecei a procurar mapas antigos portugueses desta região, ler relatos das campanhas de Afonso de Albuquerque e outras estórias de aventureiros portugueses nestas paragens. Entre elas uma passagem breve da Peregrinação em Mascate e Ormuz. E ao chegar começar a procurar os fortes, traços da arquitetura, vocábulos portugueses no árabe local, etc.
Para minha surpresa, toda essa marca portuguesa foi suplantada pela globalização… não a que nós começámos, mas a mais recente. Há presença portuguesa sim, mas não aquilo que esperávamos. Logo no primeiro dia um grande Nando’s entra pela retina adentro (os neons eram mesmo fortes catano!). O seu frango “peri-peri” – o que aconteceu ao i do piri? – lá está para agradar aos comensais. Depois vou ao supermercado e lá está o pãozinho português, ainda por cima mal escrito e, assim como o peri-peri, de português já parece ter pouco. É verdade que a globalização que nós começámos era muitas vezes brutal, mas pelo menos a herança era claramente portuguesa, séculos depois. A atual parece efémera e desvirtuada. Fica prometido um ou mais posts sobre a verdadeira herança portuguesa. Não prometo um post sobre o Nando’s.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Alentejo em Omã II



Para matar um pouco das saudades, eis outra bela sopa alentejana. Desta vez os ingredientes são mais universais e não foi difícil encontrá-los. Ainda tenho de descobrir o que significa “abóbora vermelha indiana”. Espero que não signifique previamente condimentada…
A sopa de feijão frade com abóbora é uma variação da que se encontra nas receitas de feijão frade que normalmente leva cenoura e não abóbora. A salsa/coentros são opcionais. Quanto a mim a versão que aprendi é bem mais saborosa. Vamos então chamá-la sopa de feijão frade com abóbora à moda do meu pai :D. O pão junta-se torrado ou mesmo frito no fundo do prato (são as sopas no Alentejo). Simples, saudável e óptima!

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O Alentejo em Omã

Já as tinha visto a crescer por entre as pedras da calçada. E num pensamento gastronómico irreflectido pensado mesmo em arrancar umas do chão, ignorando a sujidade. Felizmente esperei até ir ao supermercado – o que os locais usam – e lá estavam elas: beldroegas! Para quem é do Algarve baldroegas. Para quem é de Lagos beldregas. Não sei como as cozinham, estavam no meio das ervas frescas como a menta, salsa e outras coisas desconhecidas. Sei que depois de as ter encontrado o meu objectivo passou a ser encontrar os ingredientes para a sopa das ditas. Ignorando os legumes com ar de cruzamento entre courgete e cabaça, pepinos raivosos e bolinhas vermelhas espinhosas, lá encontrei as batatas e os alhos. Para os queijos é que tive de me aventurar e encontrar o mais parecido com um queijo curado de cabra e outro de ovelha. Espero que os Sírios percebam da coisa porque foi o mais parecido que encontrei. Ovos já os tinha em casa. Pão alentejano é que continua a ser um exclusivo alentejano, com umas incursões na margem Sul.
A cereja em cima do bolo – ou melhor neste contexto – a azeitona em cima do ensopado, foi encontrar algo muito parecido a bolos folhados. Só quem já os comeu na zona de Reguengos perceberá, não são aqueles caracóis melosos que vendem nos cafés. Estes, para ser como os alentejanos só falta um ingrediente que não abunda por aqui: banha de porco. Sim, aquela gordura nojenta (e nestas bandas ímpia) dá o gostinho especial destes bolos.
À vossa!

Obrigado Ronaldo


Se em Portugal as capacidades sociais são importantes no mundo do trabalho, em Omã são essenciais. Um “olá, tenho aqui este papel para o cartão de residente” não é muito bem recebido. Até podem tratar das coisas, mas com uma cara de pau de meter inveja ao Eanes e sem qualquer informação adicional ao ponto de pensar se o papel alguma vez sairá daquela secretária. Às vezes apetece voltar atrás e dizer “Olá, bom dia, como está? Sou o Gil. Como se chama? Cheguei há dois dias e estou a gostar muito do país. É muito bem vindo. Obrigado, estou muito contente por aqui estar. De onde vem? De Portugal. Ahh. Sabe, o meu filho acompanha a liga espanhola. Acha que o Ronaldo vai sair do Real Madrid? Pois, ele tem estado a falar nisso. Dizem que o Mourinho o vai levar para o PSG. Mas só deve sair no fim da época. E porque é que o Mourinho não treina a seleção Nacional? Deviam ter ganho à Espanha. Os espanhóis já conhecem o Ronaldo e não o deixaram fazer nada. Pois é, foi um jogo renhido. Aquele tiki taka é muito irritante mas funciona. Bom, tem aí os documentos para o cartão de residente? Isto deve estar pronto para a semana e entramos em contacto consigo quando for buscar o cartão à policia. Tem de esperar um bocado para tirar as fotografias e as impressões digitais mas sai de lá com o cartão. Tem de pagar com cartão de débito. Ok, muito obrigado, é uma grande ajuda. Pois é eu também prefiro a bola para a frente ao estilo inglês…”
5 minutos de conversa depois e está tudo tratado com toda a informação e dicas úteis. E claro, sorrisos de ambas as partes!

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Packing day

Packing day... I guess when your home is nearly empty there's no turning back and departure becomes pretty real and just around the corner. With most of the furniture gone, the flat is back to its spartan existance... well modern spartan, I mean, not most recent Sparta, no wait, this is not a joke about Greece, dam, you know what I mean.