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quinta-feira, 24 de julho de 2014

Sifah. Entre fiordes, mangue e montanha

Solitário aguarda a maré cheia
No caminho para Yitti já me tinha perguntado para onde iria aquela estrada no cruzamento. Este fim de semana fui. E já devia ter ido. A estrada serpenteia entre montes e wadis e passa por uma zona onde o mar invadiu a terra. Geralmente indica uma subida do nível do mar recente ou uma zona de subsidência de terra ou uma combinação das duas. O resultado são fiordes com uma costa muitíssimo recortada e montanhas a emergir do mar. Estando nos trópicos as poucas zonas aplanadas e lamacentas foram colonizadas por mangue. Pela riqueza biológica e também geológica esta zona é um pequeno parque natural.
Em cada wadi há uma vilória piscatória e correspondentes pescadores prontos a levar qualquer turista num passeio de barco por alguns reais. Não o fizemos mas deve valer bem a pena.
Uma das muitas reentrâncias da costa como um pouco de mangue no primeiro plano
No fim da estrada chega-se a Sifah, uma vila não muito grande mas com um empreendimento turístico recente que deve ter duplicado o número de casas e de pessoas. Aqui o areal é extenso, com um cordão de dunas e zona aplanada. Para o interior e a ladear a zona baixa estão montanhas formando um anfiteatro gigante e lindíssimo.
O passeio foi contemplado por um belo peixe grelhado - algo raro por aqui, sempre frito e com o indispensável picante - num restaurante local.
Tudo em poucas horas e a 50km de casa.
A praia de Sifah e as montanhas envolventes
 

segunda-feira, 11 de março de 2013

Walking the wadi


Um dos flancos do wadi em Yitii
Pensava que o termo wadi era uma das variações da palavra wued, ambas referentes a ribeiro ou rio. A última é um termo usado no Norte de África e que em Espanha e Portugal deu origem a Guadiana, Guadalquivir e outros rios e ribeiros. A comentar a origem destas e outras palavras no Português e Espanhol com omanitas, foi-me explicado que as duas não são sinónimos nem variações, simplesmente uma refere-se a rio perene (wued) e outro a rio intermitente (wadi). É interessante observar como a geografia influencia a língua. Pelo que sei não temos (nem os espanhóis) palavras específicas para estes conceitos. E o facto de na Península Ibérica ter ficado só com o termo wued. É seco mas nada comparado com maior parte dos países árabes.
Pequeno wadi em Yitii
Ao explorar um pouco de Omã, percebe-se a relevância de ter os dois termos. Quase todos os vales, mesmo os que têm origem nas montanhas onde chove mais são intermitentes. E destes a esmagadora maioria não tem água a correr no inverno: são quase sempre secos com inundações catastróficas quando passa por cá a monção ou outra tempestade mais forte. Para conter as torrentes e aproveitar alguma dessa água várias “barragens” estão ou já foram construídas no sopé das montanhas para que a água infiltre quando há cheia. Uso as aspas porque estas barragens são basicamente muros de pedra com poucas dezenas de metros de altura e vários kilometros de comprido, a cortar vales gigantes sem uma gota de água. À superfície.
Mesmo nas zonas aparentemente mais secas é interessante observar que há vegetação. Pouca mas constante e muitos dos vales estão cultivados, alguns com plantações de sequeiro como as tamareiras (que dão tâmaras bem boas, mesmo para quem não costuma gostar como eu) mas também outras árvores de fruto e vegetais que certamente precisam de mais água. Esta tem origem nos muitos poços que existem nos vales que indica que a água subterrânea abunda ou pelo menos existe em quantidade suficiente. 
Uma das "barragens" na zona de Sohar
Outra fonte de água, ainda hoje usada, são as falajs, um feito da engenharia antiga. As mais simples são como as levadas da Madeira que transportam água ao longo de canais a partir de uma fonte. As mais complexas nos sopés das montanhas envolvem poços verticais de algumas dezenas de metros até ao nível freático e galerias horizontais ou levemente inclinadas ao longo de kilometros (!) até à zona de costa ou vales mais longe das montanhas. Ao longo do percurso há poços onde a água é extraida para uso doméstico e agricola. Existem há mais de 1500 anos e a sua origem é debatida. Já vi escrito que tiveram origem na Pérsia, onde também são usadas, mas os omanitas reclamam-nas como suas. Vejam mais aqui.
Quando vir uma a funcionar reporto.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Al Bustan, Qantab e Yitii



Praia de Yitii
Já liberto de algumas obrigações burocráticas vou explorando o Sultanado por áreas cada vez mais longe de Mascate. Desta vez para Este e Sudoeste, ao longo da costa. Aqui se nota que o país ainda não está virado para o turismo. Boas estradas para maior parte dos sítios, mas não necessariamente para o que aparecem nos guias. E ainda bem. Já vos falarei da paisagem mas a primeira diferença que noto são as pessoas. Em Mascate e para Oeste, até à zona do aeroporto, todos os omanitas fazem questão de vestir a sua dishdasha e o equivalente feminino, mostrando os seus carros, telemóveis e tudo o que houver para mostrar. Muita construção nova, por vezes pouco respeitadora do já estava construído. Urbanidade e modernidade com tudo o que isso tem de bom e de mau. 
Beach bitches. Cabras em Qantab.
Ao chegar a Al Bustan (pequena vila piscatória e complexo turístico) já se nota que nem toda a gente se veste a rigor. É fim de semana e uma t-shirt e calções bastam. Pescadores, agricultores, famílias com vidas mais modestas (embora não tenha visto pobreza). Cabras passeiam pelas ruas e até uns dromedários (aqui não há camelos, só na Ásia central!). Chegando a Qantab e mais além a Yitii, a modernidade não parece ter chegado aqui, com exceção da estrada alcatroada. Ainda bem que existe porque antes dela o acesso deveria ser só por mar ou através dos wadis e algumas zonas mais baixas no meio das montanhas. E devia ser a burro.
Algumas habitações grandes, mas de resto são casas tradicionais e as populações parecem ainda viver desse modo. Muita comida a ser levada de umas casas para outras, uma comunhão de aldeia que sabe bem observar e espero um dia vivenciar.
Cabrazinha, olha aqui o caldeirão, anda cá...
 Sobre a paisagem vou pela primeira vez usar uma palavra que espero não gastar, mas acho que a vou usar muitas vezes: é BRUTAL! As montanhas de ofiolitos com outras rochas pelo meio (estou a conter a descrição geológica), cada uma com a sua cor e padrão, rasgadas pelos wadis largos, com tamareiras e outras plantações até às praias de areia e calhaus. Infelizmente não houve muitos pontos onde conseguisse parar o carro em segurança para contemplar e fotografar. E apetecia parar de 100 em 100 metros.
Desculpem a qualidade das fotos, fiquei sem bateria, teve mesmo de ser com o telemóvel.
Vista de Al Bustan para SE