segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O deserto

A rara nuvem e algumas ervas ao longe
A imaginação colectiva vê os desertos como sítios com areia, dunas gigantes e uns quantos esqueletos de animais desafortunados. Esses sítios existem, mas são apenas 1/5 das áreas desérticas do Mundo. Na verdade estou a viver no deserto há um ano, visto que Omã, exceptuando as montanhas e a região de Dhofar, mais a Sul, é tecnicamente um deserto.
Estive uma semana a fazer trabalho de campo (uma das várias vantagens da empresa) na zona de Huqf-Haushi, na parte Leste do País. É desolada, com pouca vegetação, remota e silenciosa. Algumas zonas mais baixas - o que é difícil de perceber visto que toda a zona é muito plana - recebem água quando as chuvas nas montanhas a mais de 300km de distância são fortes e extravasam os leitos dos wadis. Formam-se lagos que podem durar semanas ou até meses até evaporar e escoar toda a água. Esses baixios têm alguma vegetação, mas sempre escassa e igualmente efémera. O restante desta área é rocha exposta, sem solo. Para geólogos seria ideal se não fosse a areia que cobre muitas zonas, embora sem formar dunas consolidadas. Embora austera nesta zona vivem camelos, lebres e corvos (que consegui ver) para além de gazelas, oryxes, raposas e muita passarada.
Aquele ali pestanudo é o meu!
Os primeiros, apesar de parecerem selvagens têm donos. São de tribos beduínas, agora em grande parte sedentarizadas, embora alguns vivam ainda no deserto sem morada certa acompanhando as manadas. Não vi camelos marcados, pelos vistos são reconhecidos pelos donos pela cor do pelo, olhos e outros pormenores que passam desapercebidos pelos demais.
Nesta altura do ano as temperaturas são amenas, mesmo quando passam dos 30ºC há um vento constante e cortante (infelizmente acompanhado de muita areia) que refresca. À noite fica frio, muito, abaixo dos 10ºC e igualmente ventoso. Se não fosse a luz dos campos petrolíferos o céu nocturno seria perfeito. Ainda assim sente-se a paz e a calma que moldou este povo.
A planura austera e o objectivo da saída ao fundo.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Frio, essa rara sensação

Sim, posso dizer finalmente que, desde Janeiro passado, senti frio. Exceptuando as salas em que o ar condicionado está bom para recordar o Norte da Europa no Outono, a manga curta foi constante e sempre que possível a chinela no pé.
Ao chegar ao trabalho, no final de Novembro.
Vale no entanto a pena dizer que foi ao fim da tarde, já a anoitecer - isso por cá é às 18h - na praia, depois de sair do banho. De resto durante o dia estão uns amenos vinte e poucos graus, chegando aos 30ºC no pico do sol. Ainda assim sempre com uma brisa. Bem agradável.
Ainda estou a recuperar do hábito, do qual só me apercebi quando começou a ficar fresco, de me retrair sempre que abro uma porta para o exterior. Todos os edifícios são climatizados e metade do ano está um calor infernal, de modo que o bafo quente e húmido que nos acolhe sempre que se abre uma porta molda o comportamento. Lentamente vou substituindo a retração por um sorriso de alivio e prazer sempre que a porta se abre. Parece psicótico, mas sente-se mesmo como um peso que saiu de cima.
Olhó cobertor barato pó frio! É lindo e barato! Vá lá vere!
Naturalmente agora que as temperaturas descem à noite para uns glaciares 16°C os locais acham que está um frio horrível, passam mal à noite porque não se conseguem agasalhar o suficiente. Se calhar há mesmo quem compre as coleções de roupa de inverno iguais às europeias que vendem agora nas lojas como a H&M e Zara. Gorros, luvas, casacos com lã polar, camisolas de caxemira... Viva o Inverno omanita!

domingo, 12 de janeiro de 2014

Hallowen e a reciclagem

O leite faz bem aos ossos
Sendo o contingente ocidental de maior relevo de origem anglofona e neerlandesa, o Halloween é obviamente comemorado no seio dos expatriados. Infelizmente o Carnaval não é, embora ache que o contingente latino provavelmente teria peso suficiente para isso.
Com alguns meses de antecedência resolvi começar a fazer os adereços para o evento. Aproveitando materiais em abundância - pacotes de leite de plástico - e a fonte inesgotável de informação e de ideias que é a internet, eis que surge um esqueleto e outros semelhantes para a noite das bruxas. A alternativa para estes e outros materiais é a reciclagem, por aqui organizada pela Sociedade Ambientalista de Omã, a única ONG autorizada a trabalhar nessa área - é um estado estranho e corporativista. Quem trabalha na empresa tem a vida facilitada porque há contentores onde se podem por todos os materiais recicláveis. Para quem não tem acesso às mesmas instalações, sobram alguns pontos na cidade onde se faz recolha. Um pouco como em Portugal nos anos 90 em que reciclar requeria a dedicação de acumular o cartão e papel para ir entregar aos pontos de recolha. Infelizmente não há nenhuma central de reciclagem em Omã, pelo que todos os resíduos são exportados. E há rumores que essas centrais (aparentemente nos Emirados) não têm capacidade de receber mais nada. O que acontece à reciclagem de Omã não se sabe mas há o receio que esteja a ser misturada com o lixo normal e enviada para os aterros... O metal segue por meios igualmente obscuros, mas pelo menos com o fim de ser reciclado, ao que parece para a Índia.
No entretanto sobram os outros Rs do lema ambientalista. A redução é difícil visto que tudo aqui é vendido em embalagens e raramente a granel. A reutilização por agora passa por enfeites de Natal, caixas de sandes, estojos para os lápis e canetas entre outros.
Mais sobre reutilização aqui e aqui. E googlar claro.

Parabéns Sua Majestade

O aspeto mais doce do aniversário
A 17 de novembro Sua Majestade o Sultão Qaboos bin Said Al Said bin Taimur faz anos. Sendo o Sultão e sendo Omã um sultanado adivinha-se festa majestática. De facto desde há um mês que praticamente todas as ruas, autoestradas e tudo quanto é empresa, repartição, loja ou similar está enfeitada com as cores de Omã, a bandeira e ainda mais imagens do monarca. Claro que isso significou um feriado de 2 dias, o que foi considerado pouco pelos locais, já houve anos em que foi um semana inteira. Nas últimas semanas começou a ver-se também carros pintados com as cores do sultanado e imagens do Sultão. Esses e muitos outros juntam-se em algumas zonas de Mascate, especialmente junto a praias para comemorar, todas as noites.
O centro comercial cá do sítio com uma celebração discreta
De início eram apenas as cores do país e buzinadelas, mas recentemente passaram a ser também corridas de automóvel em via pública, disparar armas semi-automáticas para o ar, pôr 15 amigos dentro do carro incluindo alguns a sair pelas janelas e conduzir à maluca, seguido de piões e outras proezas com a consequência de ferir mortalmente alguns desses amigos. Todos os anos morre gente mas a festa continua. E não há álcool. Conhecendo o tipo de celebrações se calhar é mesmo melhor continuar a não haver.

sábado, 4 de janeiro de 2014

A herança portuguesa em Omã IV

Já tinha indagado sobre vocábulos de origem portuguesa que tivessem ficado no árabe que se fala em Omã ou pelo menos em Mascate. Procura infrutífera até agora. Sempre que encontrava uma palavra em comum era influência árabe no português e certamente via Magrebe. Apenas o edifício Graiza em Mascate antiga que se refere à antiga igreja e convento portugueses que existiam no local. Além disso apenas o Ryal, a moeda do Sultanado, originalmente o Real português, em tempos moeda de troca por esse Índico fora.
Uma vista das varandas do bait al baranda
Em Mutrah, antiga Matara para os portugueses, tinha reparado num museu chamado bait al baranda. Veio logo a piada fácil que devia ser por ter varandas. Depois de o visitar e googlar a palavra descobri que não é piada. Parece que varanda ou a variante veranda existe no português e no espanhol desde pelo menos o século XV e não existe similar em árabe. Só em persa existe baramada e não se refere ao mesmo conceito. O edifício não é português, foi construído mais de um século depois da expulsão dos portugueses destas paragens. Originalmente não o tinha, mas ficou, depois de ficar na alçada do ministério do turismo, com o nome usado popularmente em Matara devido às suas varandas. Fica a sugestão de que Omã foi colonizado por pessoal do Norte carago! Sobre o museu tem uma exposição sobre a história de Omã, desde os dinossauros até aos dias de hoje, com muitos saltos. Há uma sala com dois esqueletos de dinossauro muito apertados, outra com a colisão dos continentes (e a formação do ofiólito de Omã) passando depois para a pré história e história mais recente. Um pouco de espaço ainda para os trajes e instrumentos musicais tradicionais do país. Apesar da exposição desgarrada vale a pena a visita.
Sobre a palavra, um site interessante aqui

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Com três furinhos apenas...

As maquinetas ruidosas que me mostraram o
mundo das drogas injetáveis
Se tira um apêndice. Tinha tido um dor passageira há cerca de duas semanas mas não liguei. Devem ser gases disseram na altura. Anteontem de madrugada a dor era bem mais intensa e claramente não passageira. Depois de uma passagem pela clínica da empresa fui para as urgências de um hospital, felizmente já com uns analgésicos no sistema. Ainda foi grande a espera entre análises ao sangue, ecografia e diagnóstico do médico. Apêndice inflamado, glóbulos brancos em alta e dores características. Tempo de chamar o cirurgião e planear a operação para o próprio dia. Umas horas depois lá vesti a bata e roupa interior especiais para a ocasião. Suspeito que para além de dar jeito para os médicos e enfermeiros sirva para o paciente se sentir ridículo e incapaz e consequentemente colaborante. Só me lembro de o médico me dizer para sonhar com coisas boas como as praias do Algarve e de acordar (?horas) depois com uns empurrões das enfermeiras que arrumavam a sala e queriam despachar o paciente para o quarto. Um serão meio grogue e noite com vários períodos de sono e acordar para se mudar o soro. Boa recuperação e alta no dia seguinte. Ainda bem que não fiquei mais tempo. Os dois canais de Bollywood, apesar de terem um repertório que vem dos anos 70 começavam a fatigar. Já começava a reconhecer alguns actores. A qualidade clínica é boa, apesar de o médico anestesista me ter tido que tudo pode acontecer, mas InshAllah vai correr tudo bem. Allah foi grande. E a parte administrativa é digna de um filme de comédia. Começou por me ser dito no balcão das urgências (têm uma entrada especial para essa parte) que tinha de ir até ao outro lado do edifício para me registar e trazer de lá os papeis. Depois, já numa cama, pedirem à esposa grávida de 9 meses para ir carimbar uns papeis ao mesmo balcão do outro lado de edifício. "Mas acabe o seu pequeno almoço, não tenha pressa". E a cereja no topo do bolo foi terem dito para ir pagar ao piso debaixo, trazer de lá os papeis para depois me darem alta. Aí o copo transbordou e as evidências de uma grande barriga e um apêndice recém retirado fizeram com que abrissem uma excepção e me dessem a alta sem os papeis.
Em Bollywood as estórias de amor são ainda mais lindas
Esta é a estória feliz de um expat que trabalha numa empresa que cobre todas (ou quase) estas despesas no melhor hospital do país. Os locais têm acesso aos hospitais públicos. Os expats só em caso de urgência grave, como um acidente de automóvel. Para quem não tem nacionalidade omanita sobram os privados, que vão desde a clínica de esquina a hospitais completos mas que nunca chegam aos padrões de Portugal - sim temos um sistema de saúde bastante bom acreditem. Quem emprega expats tem, segundo a lei, de dar um seguro de saúde ou algum tipo de cobertura. Isso é a realidade para os expats qualificados, mas infelizmente muito longe dela para os expats indiferenciados que trabalham nas obras e outros trabalhos mal pagos.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O Outono é como o Verão

Maio em Omã
Já vos tinha falado do clima e de como é quente. O Verão cá não tem comparação, como um dia de Agosto no Alentejo em que a humidade está muito alta, multiplicado por 120 dias... com o bónus de não ficar melhor à noite. Há com certeza saunas mais frescas do que o Verão arábico. Um relato comum de quem vive cá há umas décadas é o hábito dos locais - e suponho que dos expatriados - durante o Verão, dormir nos terraços (algo semelhante às açoteias algarvias) com o mínimo de roupa que os costumes permitem e de hora em hora ir encharcar o lençol em água e tentar voltar a dormir. Viva a tecnologia do freon.
A partir de Setembro e, com sorte, no final de Agosto a humidade começa a baixar. Durante o Verão estamos normalmente nos 70-80%. As temperaturas por vezes até ficam mais altas, passam dos 30-35ºC para dias em que chegam perto dos 40ºC mas sem o bafo quente e húmido de abrir o forno ou, numa analogia que acho mais apropriada, ficar a apanhar o bafo de uma turbina de avião. Assim, mesmo nos dias quentes, à sombra e com uma brisa fica suportável e perto da água passam-se serões bem agradáveis. E as noites são amenas. Devo dizer que é um alívio. Respira-se bem. Pode-se começar a desligar o ar condicionado durante a noite - as casas são mal isoladas de modo que a climatização é essencial. Para um português sabe a Verão. E sabe bem.